segunda-feira, 17 de outubro de 2022

... num mundo de (im)possibilidades

 Fecho meus olhos e então estou em um barco, no meio do oceano. Não estou no meio do nada. Ao contrário, estou no meio da imensidão. Não há remo, não há vela, não há motor, não há força propulsora alguma... Somos apenas eu e a pequena embarcação. Não há tempestade, tudo é calmaria. O mar está uma mescla de azul que não decifro, e o céu está num tom exuberante de azul indescritível e não há nuvens no céu. E um dia de Sol e nem todo azul tira da ambiência o amarelo dos raios solares...


O mar está parado, o tempo está parado, eu estou parada... não há uma conexão Tempo/Espaço, não há caminho, não há direção, não há. Existe um vazio enorme, tão grande quanto a imensidão à minha volta. E o silêncio envolve meus sentidos com o vácuo, mas com ar para respirar na calmaria. Não há dor, não há medo, não há sofrimento, não há desespero... mas, também não existe amor, não existe alegria, não existe movimento, não existe vida... de alguma forma tenho paz.

Eu que sou uma alma da Terra, estou envolta em Água, que não me molha, não me lava, não me trata, não me move... Sou um corpo sem alma num mundo de (im)possiblidades.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Florescer

Tempo de limpeza. As travessias da vida estão duras por aqui e os infinitos particulares engolindo. Tempo de renovação. Retirar do caminho aquilo que já não serve mais ou já teve sua finitude. Tempo de plantio. Arar a Terra, adubar, escolher as sementes, plantar e, o novo surgirá. Talvez não tão forte, mas viçoso o suficiente para resistir, crescer e florescer. Tempo da espera. Respeitar o Tempo.

Em todas as estações, em todos os ciclos há muito trabalho a fazer. É Primavera. É necessária rega, suportar as pragas, o Sol forte, a chuva intensa, a dureza do outro e a própria fraqueza. Florir não é tão simples ou tão fácil. Há muito que vencer. É mais que esperar do outro. É imprescindível fazer a própria parte. Florir não é para os fracos.


A beleza, o perfume, o brilho, as cores chegaram. É Primavera. É Tempo de Amor, de amar, de florescer, de vencer as adversidades, continuar florescendo em si, no outro. “Em nossas vidas teremos pessoas que regarão nosso viver, assim como algumas que nos arrancarão sem pena do solo seguro, mas em ambos momentos, há de se retirar aprendizados e há de se brotar novamente”.

Aos que regaram e regam meu viver, minha mais profunda gratidão. A quem me arrancou sem pena do solo seguro, minha mais profunda gratidão. Em ambas brotei e reafirmei ainda mais: ao pisar em solo sagrado (alma/coração), devemos pisar com respeito, com amor... Vamos primaverar! Vamos florir!


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

É assim que acaba

 

Há um tempo na vida que costumo chamar “recolhimento”. O tempo de se recolher e se acolher, que vem depois que algo quebra dentro, fora ou ao redor de nós. Tempo precioso que deve ser aproveitado ao máximo. Entendimentos, sabedorias... quem dera os machucados curassem tão logo acontecessem. Ao mesmo tempo, que seria de nós sem sabermos que o tempo de cura e cicatrização é sempre muito superior que ao de ferir?! Isso nos ensina respeito a si e ao outro.

E então as feridas cicatrizam, recolhemos os pedaços espalhados e, muitas vezes, descobrimos que alguns já não nos pertencem, já nos cabem mais. Nossas inteirezas tomam outras formas e aspectos e estamos vibrantes de novo. Aí sim, pegamos um novo dia e estamos preparados para o novo. Não carrego dores, mágoas, pesos e deixo o passado exatamente onde ele deve ficar: no passado. Não levo comigo o que ficou, ao contrário, mantenho distância. Não emendo caminhos, porque sei que isso me faria começar com pesares e lembranças e comparações e tristezas e ressentimentos e lamentos e a pressa é inimiga da perfeição.

É assim que acaba uma história e é assim que começa outra, mas essa é uma outra história.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Ah, o Tempo...

A unidade de medida mais valiosa que temos chama-se TEMPO. Por tão valioso, ele sempre nos passa a impressão de que nos falta, que é curto, pequeno... Não! O Tempo é o Tempo. Tempo... apenas. E não leva em consideração se você o valoriza ou não. E cada um tem seu próprio tempo – ou acha que tem – e o Tempo tem todos os tempos. Mas se a vida rasgar a aproximação Tempo X Espaço, o Tempo se encarrega de tirar a cor, o brilho e o perfume  do que um dia foi colorido, lustroso, cheiroso e torna translúcido, invisível, inodoro... até que some. E, então, alguns podem continuar no caminho – fazem parte dele e a escolha foi feita antes do Tempo presente –, mas não se sentarão mais a nossa mesa.

E o Tempo tem os seus segredos e nós também. Em cada um de nós há um segredo, na verdade, vários dos quais muitos não ousamos sequer admitir para nós mesmos. Ou então uma paisagem interior com planícies invioláveis, morros intransponíveis, corredeiras assombrosas, caminhos tortuosos, mas que formam os nossos paraísos secretos... E nos pegamos em algum Tempo nos questionando “e se”. Ah, o Tempo... como nos faz sentir traído e traidor de uma mesma questão. Avança, avança, avança... e nos faz voltar em pensamento naquilo que achávamos que já havia sido posto, mas na verdade ainda é aposto.

O Tempo pode ser uma semente que cresce no mais profundo silêncio da alma, sem fazer um único ruído. E, quando percebemos, ele se torna uma árvore frondosa, cheia de raízes e com muita sombra e pensamos que podemos nos alimentar dos seus frutos... E então vêm as tempestades da vida, nossas inconformações, nossos ”e se”, nossas construções com alicerces mal feitos, terrenos arenosos, nossa pressa em mostrar uma capacidade que nunca existiu, um avanço preso ao passado... e esta árvore cai, fazendo um barulho imenso, ensurdecedor. A destruição é barulhenta, mas todo o resto é silencioso. 

Este é um dos poderes do Tempo: o silêncio. Mas quando percebemos que ele passou, o barulho ensurdece a alma. E ensurdecer a alma é um dos poderes do silêncio... É, a gente corre o sério risco de chorar um pouco quando se deixa cativar. O Tempo traz uma procura... ora do outro, que mora na gente, ora da gente, que ainda mora no outro.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Forjar é para metais

“Forjar é o ato de fabricar algo na forja, isto é, modelar mental ou outro material através de uma forja.


Normalmente, o ato de forjar tem o metal como elemento principal. Quem realiza o trabalho na forja é o ferreiro.

No sentido figurado, forjar significa inventar, no sentido de dar origem a alguma coisa a partir do nada, sendo em geral algo que não é real, uma evidência falsa.

Sinônimos: adulterar, armar, compor, criar, elaborar, fabricar, fazer, idealizar, inventar, manipular, manufaturar, maquinar, modelar, tramar, urdir”.

 

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Nunca vi o trabalho de um ferreiro forjando uma peça de metal – o que lamento profundamente, já que considero o trabalho artesanal lindíssimo. Mas ao longo da minha vida já vi tanta gente forjar os mais variados tipos de atitudes e sentimentos – o que também lamento, já que considero o falso terrível.

É engraçada esta comparação e ao mesmo tempo tão assustadora. Uma peça forjada é duradoura, é forte, é a transformação do metal bruto, pesado em proteção, em arte, mas também em arma. Os ferreiros forjavam ferraduras para proteger os cascos do cavalo, faziam objetos que serviam de adorno, mas também forjavam espadas que quitam vidas.

Forjar atitudes e sentimentos pode ser uma das piores forjas do ser humano. Pode ser “duradouro”, mas não é real e isso independe do que esteja sendo forjado – atitudes ou sentimentos. A forja, a mentira machucam mais que uma dura verdade, que uma nua realidade, e têm prazo de validade. Ao final, se fere, mas também se é ferido. Refugar a realidade, forjando sentimentos e atitudes pode ser tão fatal quando uma espada... cravada no peito do outro, mas também em si mesmo.

Forjar é para metais. Qualquer coisa diferente disso pode ser fatal.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Audrey, por Audrey

“E foi tão corpo que foi puro espírito. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical. Escuta: ‘Eu te deixo ser, deixa-me ser então’... Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma...

A maioria das pessoas está morta e não sabe, ou está viva com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece... Por enquanto, estou inventando... Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos... Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações”, Clarice Lispector.

 

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 Então eu sou! Sou fera, sou bicho, sou onça... tão cheia de garras e também de sonhos. Não vivo de mentiras e nem de meias verdades... hoje sou minha maior prioridade. Não gosto do raso, não sou do pouco... a minha sede pede inundações e eu transbordo. Vivo melhor! Vivo mais livre e mais completa. Ouço e me entrego aos desejos que nascem no segredo de mim mesma.

E também sou dos exageros, das grandiosidades – é exatamente assim que vejo, que sinto – e, por ser do muito, até quando erro, erro muito. Imagina quando amo! Puts! É sem limite! É tudo muito de verdade, intenso e sou capaz de decorar e perceber detalhes até então nunca sequer vistos! Definitivamente eu prefiro morrer a viver com charlatanismo, e o que não me falta é vida e vontade de viver.

Audrey, por Audrey

terça-feira, 19 de abril de 2022

Falamos de VIDA!


As tempestades, os desafios dos “invernos” da vida vêm para nos ensinar que precisamos deixar a vida fluir, seguir seu curso, respeitando cada estação. Silenciar e entender que toda tormenta, por mais forte que seja, passará. E, quando passar, é hora de fazer a limpeza. Analisar o que vale recomeçar, retomar (mais do mesmo) ou começar de novo. Adubar com atenção, escolher com carinho as sementes, semear com cuidado e destreza nas medidas, cuidar da rega – nem pouco, nem muito – sempre buscando o equilíbrio.

Depois vem o tempo da espera com paciência e olhar dedicado sobre o trabalho feito. Sem cobranças. A natureza não dá saltos e é sábia em tudo. Todo inverno passa para nos brindar com a beleza da Primavera. É o processo. Se acolher com muito amor, tendo a certeza que o processo pode ser doloroso, mas traz cura e florescimento. Uma semente se “arrebenta” de dentro para fora e isso deve causar algum desconforto, mas é daí que sai uma bela planta. É sobre isso! Falamos de planta ou de gente?! Falamos dos dois! Falamos de VIDA!