quinta-feira, 30 de abril de 2020

Gosto de festa


Toda vez que me abraço contigo

São tantos motivos pra enlouquecer
Te esquecer, juro que não consigo
Me viro do avesso pra não te perder
Quando estou viajando em teus beijos
São tantos desejos que sinto nascer
Se um dia você me deixar, eu não deixo você
Ao sentir tuas mãos flutuar em meu corpo
Me desprendo de mim sem fazer alvoroço
Coração fica alerta, minhas portas abertas
E as palavras que surgem eu não posso dizer
São momentos sem fim, você dono de mim
Saboroso prazer, dá gosto de viver
Esse gosto de festa, a minha alma em festa
Como foi bom te conhecer.
Dominguinhos do Estácio

******

Algumas músicas são tão belas, são verdadeiras declarações de amor. Há alguns pares de anos escrevi esta música como forma de declaração de amor ao meu amor, em um papelão. Engraçado como algumas atitudes nos sentenciam. Hoje, depois de tanto tempo, depois de tantas coisas, tantas situações – algumas fáceis, outras nem tanto – eu ainda te amo tanto. E como na música, “se um dia, você me deixar, eu não deixo você”. E eu não te deixei. Por mais difícil e doloroso que seja, em momento algum me arrependo de ter conhecido você, de ter despido a minha alma, de ter me entregue de alma, corpo, coração... Com a mais absoluta certeza o amor que sinto por você é o melhor sentimento, o mais profundo que já senti por um homem. Como foi bom te conhecer. Eu te amo... até sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2020

O tempo


“Ter menos para ser menos propriedade das coisas. O excesso a ser administrado nos rouba o bem mais precioso: o tempo”.

*******

Ah, o tempo! Sempre avassalador, sempre dono de si e de tudo mais. Quanta perda de tempo passar o tempo, pensando no tempo futuro – que pode ser que nem chegue – deixando de viver o tempo presente.

Há quem caminhe lentamente sobre o seu tempo e há quem o atropele. Ambos se equivocam com o próprio tempo achando que ele é infinito, mas escorre por entre os dedos. É hora de valorizar o tempo, porque uma hora ele é tempo e na outra, não mais.

Tempo é presente precioso e já que vamos perdê-lo que seja com quem verdadeiramente amamos.

sábado, 25 de abril de 2020

O que se perde, o que se ganha...


Já falei em uma postagem que sou lerda para algumas coisas, mas quando se trata de sentimentos, sou uma perfeita idiota. Na maioria das vezes, interpreto errado e o preço que pago é alto... quando considerei de fato fazer minha iniciação no Candomblé considerei algumas coisas e superestimei outras. E, é claro, que o resultado não foi dos melhores. Eu não sou boa de entrelinhas, não sei ler este tipo de diálogo.

Não sou uma pessoa carinhosa, mas sou pau pra toda obra e se eu amo alguém, não meço esforços. Não sei se isso é defeito ou qualidade. O amor pra mim é sagrado e eu amo por inteiro, com plenitude, desarmada e com a alma nua e sempre espero o melhor do amor, até porque faço o melhor que posso, com o que tenho e com o que sei. Pode até não ser o melhor para os outros, mas com a absoluta certeza, é o meu melhor, meu mais puro, meu mais profundo.

E eu perdi. Supervalorizei o amor. E perdi o que tanto prezava. Perdi sem opção de escolha, porque se tivesse que escolher o meu amor mil vezes, eu escolheria mil e uma. E eu perdi sem sequer ouvir uma única palavra. Quando eu vi, já não existia. E tudo que eu considerava tão sagrado, tão meu, já não era mais.

Em cada escolha do meu amor, em mim ele encontrou total apoio. E foram muitas as escolhas. Conheci em uma profissão e, em 15 anos de convívio, foram algumas outras. E, em todas as escolhas, o meu apoio. De lugar foram outras tantas escolhas e lá estava eu. Viajei alguns pares de quilômetros de carro, de ônibus, de avião. Porque pra mim o amor passa pelo apoio, pela cumplicidade. Sem contar que mudaram as profissões, os lugares, mas a pessoa é a mesma e com o amor ao lado se caminha mais firme. E, caso algo não saia como esperado, se tem o melhor lugar para pousar: nos braços de quem nos ama.

Na nudez da alma eu tinha o maior orgulho de dizer que o amor é maravilhoso e que eu o conhecia. Orgulho sem soberba. Do meu amor sempre falei com amor, alegria. Além de amor, sempre falei que era meu melhor amigo. Desde quando o conheci, quando acontecia algo bom, ele era a primeira pessoa que eu pensava e contava. E, se acontecia algo ruim, também era nele que pensava e pra ele que contava. E, ainda hoje, ele é a primeira pessoa em quem penso, mas já não tenho como contar.

E quando escolhi fazer minha iniciação jamais pensei que seria assim. Nem nos meus piores pesadelos achei que isso me aconteceria. Eu de verdade acreditei que meu amor e eu ficaríamos juntos por toda vida e que envelheceríamos juntos em algum lugar tranqüilo do interior. Eu realmente acreditei nisso e nunca imaginei que seria de outra forma. Em anos eu apoiei tantas escolhas – e algumas foram desafiadoras – e eu só fiz uma escolha.

É tão estranho. Eu sou um ser humano como qualquer outro, com defeitos e qualidades; sou uma pessoa séria, digna, correta, honesta; sou uma profissional que trabalha muito para colocar na mesa o pão nosso de cada dia; sou uma mãe que faz o possível para e pelos filhos; não sou boa dona de casa, mas cuido da minha casa com zelo e carinho; sou uma mulher bacana; não faço e não desejo mal a ninguém. Eu creio em Deus e nas forças da Natureza, amo Nossa Senhora. Não sou do mal, não apoio o mal, não aprendi a virar a cabeça como a menininha do filme “O Exorcista”, tampouco aprendi a subir paredes de costas.

O que eu aprendi na minha iniciação no Candomblé? Aprendi a silenciar, domar mais meus impulsos, ser menos explosiva, olhar pra dentro de mim, respirar fundo quando as cosias saem do “controle”. E outras coisas ficaram ainda mais fortes dentro de mim. Deus está em todas as coisas e isso inclui dentro de cada um de nós; o amor é o mais forte e o mais nobre dos sentimentos; podemos nos compadecer da dor do outro, mas jamais senti-la, então a dor do outro tem que ser respeitada; que o diálogo é de suma importância para todo tipo de relação; tudo que te é de valor deve ser preservado com respeito, carinho e amor; que não podemos voltar atrás, mas podemos recomeçar, retomar a qualquer tempo; que o coração do outro é terra sagrada, então só se pisa com muito amor.

Eu sou a Audrey. Eu sou ser humano, filha, mãe, profissional, dona de casa, mulher...
*******

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Seres desumanos...


O ser humano é quase tudo, menos humano.

Depois que voltei ao trabalho, só trabalhei por duas semanas por conta da pandemia de Covid-19. Mas foram duas semanas que algumas pessoas me deixaram impressionadíssima com a falta de discernimento, de afeto, de humanidade, nem sei de mais o quê. Vivi diversas situações desconfortáveis pra mim e vexatória para o outro. Não senti e não sinto vergonha da religião, mas sinto vergonha do outro, que fala cada coisa absurda.

Como já falei, trabalho com um político e o acompanho em agendas oficiais... Quando se faz a iniciação no Candomblé, a cabeça é raspada. Portanto, a pessoa fica sem cabelo. Contudo, a cabeça fica coberta até que sejam cumpridos os três meses de resguardo. Então, o iniciado – no trabalho – fica com a cabeça coberta por um lenço claro e discreto (nas demais ocasiões, o pano de cabeça branco). Fora o lenço, minha aparência é absolutamente normal. Lenço é uma coisa que até está na moda. Imagina.

Certo dia, chegando a uma determinada repartição pública, acompanhando meu chefe, uma senhora se aproximou de mim com um largo sorriso – eu disse largo sorriso – e me perguntou se eu estava com câncer. E eu respondi: “graças a Deus ainda não. Eu fiz o santo”. Na mesma hora o largo sorriso saiu do rosto dela, seu olhar se transformou e ela me olhou com tanto repúdio que chegou a me causar espanto. Acho que a decepcionei profundamente. Penso que ela preferiria que eu estivesse com uma doença grave. Como assim?!

Sabe o que é pior? Essa não foi a única vez que isso aconteceu. Em duas breves semanas de trabalho, isso me aconteceu umas seis vezes ou mais (parei de contar). Que triste! As pessoas achariam melhor ou mais certo ou sei lá, se eu estivesse com uma doença grave que anualmente quita a vida de dezenas de milhares de pessoas todo ano no mundo. O que será que eles pensam? A fé deles é processada em qual Deus? Ainda são humanos? São cristãos? Eu não sei. Sinceramente não sei. Uma coisa eu sei. Nenhuma destas pessoas me viram como uma pessoa, como um semelhante ou como um ser humano.

As crenças podem ser distintas, a fé pode ser processada de várias formas... o que as pessoas não deveriam esquecer é que somos todos seres humanos e devemos processar mais o amor ao próximo. Isso não é uma questão religiosa. É só uma questão de respeito, que inclui o respeito ao sentimento do outro. Como pode alguém achar mais louvável que uma pessoa que esteja de lenço esteja com câncer?! Nossa! Que coisa mais triste!

Todos os dias na volta do meu trabalho – trabalho distante da minha casa, cerca de 40 minutos de carro com o trânsito livre – eu vinha fazendo minhas preces a Deus e aos Voduns para que perdoassem os ignorantes e isso me inclui, e que me fizessem sempre e cada vez mais humana e que meus olhos nunca ficassem vendados, para que possa enxergar o ser humano, ainda que ele não seja humano comigo.
Continua...

quinta-feira, 23 de abril de 2020

De volta ao trabalho...


A vida tem que continuar... e o trabalho é mais que necessário.

Um dia depois da minha volta “triunfal” pra casa, fui trabalhar. Com todos os aparatos que inclui a cabeça coberta, fui para o meu trabalho. Estava de certa forma feliz. E no meu ambiente de trabalho físico eu fui muito bem recebida. Meu chefe e minha chefe, além dos colegas de trabalho, se alegraram em me ver. Nossa, foi um alívio e tanto porque eu já estava preparada para o pior. Naquele momento me desarmei.

Eu trabalho em dois lugares: com um político e dou aulas de Espanhol em um curso. Meu trabalho principal é com um político. E quando se trabalha diretamente com um alguém público, nossa imagem também fica muito em evidência – o que pode ser um tanto quanto desconfortável, principalmente na ocasião em que me encontrava. Mas minhas férias tinham acabado e eu tinha que voltar ao batente. E, é claro, que muitas coisas e situações me deixariam desconfortáveis.

Por ter a imagem vinculada a do meu chefe, muitas pessoas se aproximam de mim e me procuram para chegar até ele, para marcar alguma reunião, pegar alguma assinatura, enfim, para ter acesso a ele. Uma das minhas principais funções é acompanhá-lo em suas agendas oficiais e, isso inclui visita a obras, órgãos públicos, etc. E logo que voltei ao trabalho tínhamos que visitar uma construção e lá encontraríamos um deputado (para quem trabalhei e indiretamente continuo trabalhando) e sua equipe, além de outras pessoas. Ao todo éramos cerca de 40 pessoas.

Chegando na tal obra fui olhada por todos (quase que ao mesmo tempo) de uma forma nada interessante. Os poucos que me cumprimentaram o fizeram a distância – e uma distância considerável. E as pessoas estavam em grupos formados por três pessoas ou grupos maiores e apenas eu estava sozinha. Só duas pessoas dentre todas que lá estavam me cumprimentaram e conversaram comigo por uns 10 minutos. Os demais não passaram nem perto. Foi como se eu tivesse com uma doença altamente contagiosa. Em outros tempos, fariam questão de me cumprimentar, conversar...

Este dia me deixou muito triste. Não por minha causa em si, mas por aquelas pessoas. Tão triste ver tanta gente desumana de uma só vez, em um mesmo lugar. Foi assustador.
Continua...

quarta-feira, 22 de abril de 2020

De volta pra casa,,,


Voltar pra casa gerava uma expectativa enorme.

Exatos 30 dias depois da minha entrada no Barracão eu voltava pra minha casa. Foram 30 dias sem ver as pessoas que eu mais amo – das quais uma eu não via há um pouco mais. Nossa quanta expectativa! E gerar expectativa, na maioria das vezes, pode ser bem frustrante também. As pessoas estavam em suas rotinas. Era eu quem estava fora.

Minha mamãe foi até a minha casa me ver na mesma hora em que cheguei, meu filho chegou um tempo depois, minha filha depois de três dias e há pessoas que não chegaram. Este era o meu primeiro choque de realidade. E chegar em casa foi bom, sem dúvida, mas penso que gerei expectativa demais. Era eu quem estava com muita saudade.

Cheguei em casa, mas ainda tinha regras a seguir que perduram por mais três meses. Recebi da minha Gaiaku muitas orientações e algumas poucas concessões – chamada na religião de “quebra de quizila” – porque voltaria ao trabalho em pouquíssimo tempo. Não cabe aqui falar sobre as regras que tinha que seguir, tampouco as concessões que me foram feitas para o trabalho. O que me cabe dizer é que em casa, como toda Yawò eu havia que cumprir todas as regras, sem exceção.

Não são as regras mais difíceis do mundo que uma Yawò tem que cumprir, mas para que tudo corra bem, é necessária muita disciplina. De toda forma, estar em casa foi bom. E uma nova etapa começava...
Continua...

terça-feira, 21 de abril de 2020

Minha Dofonitinha


Os laços que ser formam em um Roncó são para toda vida.

Fiz minha iniciação no Candomblé com a Andreia – esposa de um dos meus primos. Nos conhecemos há 30 anos (isso mesmo! Ela casou ainda adolescente e eles estão juntos até hoje). Quisera Deus e os Voduns que ela se mudasse para a casa em frente a minha. Por alguns motivos não nos falávamos. Até quem um dia voltamos a nos falar e ela foi ao Barracão que frequento. Daí pra cá nossa amizade se fortaleceu bastante. Uma ajuda a outra nas precisões da vida.

Decidimos que faríamos o possível para fazermos nossa iniciação juntas. Eu de Azansú e ela de Oyá. E, assim, aos poucos, sem grandes pretensões, fomos nos preparando... até que em janeiro de 2020, entramos juntas para a iniciação. No dia 25 de janeiro formou-se o barco da Audrey e da Andreia. Começou naquele dia a nossa irmandade. Não sabíamos ainda – fazíamos apenas ideia – o quanto uma precisaria da outra e o quanto teríamos que nos apoiar.

Foram longos dias juntas. Na maior parte do tempo éramos eu e ela com nós mesmas. Ora eu precisava do apoio dela, ora ela do meu. À vezes nos falávamos e nos entendíamos só com o olhar. Foram longos dias de mistos sentimentos e emoções. Só nós duas sabemos se rimos ou se choramos. O fato é que compartilhamos absolutamente tudo e não foi fácil. E se conseguimos passar por algumas coisas, agradecemos a Deus, aos Voduns e uma a outra.

Entramos como Audrey e Andreia e saímos como Dofona Azonsi e Dofonitinha Oyasi. Construímos mais que amizade. Construímos uma irmandade que tem laço por toda vida. E não foi apenas por estarmos no mesmo barco, mas por temos nos unido, nos entendido, nos apoiado nas horas difíceis e por termos entendido que a união e o amor tornam tudo mais fácil. E no Roncó não há como se esconder em nenhum subterfúgio. Nós somos mais de nós mesmos e é necessário olhar diferenciado para encontrar o amor quando estamos desnudos. Isso é para poucos. Então, somos privilegiadas por nos amarmos na “nudez”.

E eu tenho a MELHOR Dofonitinha que uma Dofona pode ter. Ela é a Minha Dofonitinha. Minha e Dofonitinha com letra maiúscula porque ela é assim: grande em tudo que faz, além de “me pertencer”. Dofonitinha ela é só minha! (coisas de filho único que amam e têm seus “istas”: individualista, egoísta, exclusivista... e eu sou filha única). E a Minha Dofonitinha é mais que especial por tantos motivos que fica difícil enumerá-los.

Palavrão pra ela é vírgula, tem modos de menino... ah, mas ela é sensível, tem olhar diferenciado para o outro, ela cuida, tem um abraço incrível, seu beijo cura, sua presença traz cor e alegria. Ela é um ser humano incrível. Mal de mim se não tivesse tido a Minha Dofonitinha, exatamente do jeitinho que ela é: um furacão! Um furacão maravilhoso!!!

Falamos, ouvimos, sentimos e vivemos juntas o que nunca será feito ou compartilhado com qualquer outra pessoa. Saímos do Roncó com lindo laço. E à Minha Dofonitinha, os meus mais profundos respeito, admiração, gratidão e amor.
Continua...