quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Definitivamente morre menos quem morre longe

A vida é feita de chegadas e partidas; de portas que se abrem, de outras que se fecham; de encontros que nos salvam e de despedidas que nos ensinam, ainda que pela dor, que nada nos pertence para sempre.

Há pessoas que chegam como amor. Outras, como aprendizado. Algumas permanecem por uma vida inteira; outras ficam apenas o tempo necessário para deixar uma marca... E há quem vá embora muito antes de partir.

Talvez seja por isso que, às vezes, quando a morte finalmente chega, a gente não morra junto. Porque, de alguma maneira, já havia acontecido uma despedida silenciosa anos antes. O afeto já tinha partido. A presença já havia se tornado ausência. O abraço já não encontrava o mesmo lugar. E aquilo que um dia foi amor talvez tivesse se transformado em lembrança muito antes do último suspiro.

Dizem que morre menos quem morre longe.

Talvez porque a distância nos ensine, aos poucos, a sobreviver à ausência. Porque quando não vemos, não tocamos, não ouvimos, o coração vai aprendendo, mesmo sem querer, a conviver com o vazio.

Existem mortes que acontecem no corpo e existem mortes que acontecem na alma. Morrem os vínculos quando deixamos de escolhê-los. Morrem os sonhos quando desistimos deles. Morrem relações quando o silêncio passa a dizer mais do que as palavras. E, algumas vezes, morre uma parte de nós cada vez que escolhemos permanecer onde já não existe amor.

Toda escolha carrega uma consequência. Todo caminho exige renúncias. Nem sempre escolhemos certo, nem sempre acertamos de primeira. Somos feitos também dos nossos erros, das nossas dores, dos amores que não souberam ficar e das pessoas que não souberam partir.

Mas talvez viver seja exatamente isso: aprender a deixar morrer aquilo que precisa morrer para que alguma coisa nova possa nascer. Então, que a gente tenha coragem para reconhecer as partidas antes que elas se tornem ausências definitivas.

Que saiba amar enquanto ainda há tempo. Pedir perdão enquanto a voz alcança. Abraçar enquanto os braços ainda podem envolver. Dizer “eu te amo” sem esperar que a morte transforme o que sentimos em arrependimento.

A verdadeira partida, muitas vezes, não acontece quando alguém fecha os olhos. Ela acontece quando já não existe encontro. E, quem sabe, a maior sabedoria da vida seja entender que algumas pessoas não precisam morrer para que a gente precise deixá-las ir.

Há despedidas que doem, há despedidas que libertam e há despedidas que, apesar da dor, devolvem a nós mesmos a vida que havíamos deixado pelo caminho.

No fim, todos chegaremos ao mesmo destino, mas enquanto a vida ainda nos escolhe, que a gente escolha também viver. Amar. Recomeçar. Perdoar. Soltar. Ficar quando houver amor. Partir quando houver apenas ausência.

E que, quando chegar a nossa hora, não reste tanto do que dizer, porque algumas das maiores mortes acontecem quando ainda estamos vivos... E uma das formas de amor é simplesmente não esperar a morte para compreender que nem tudo vale a pena.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Esperança

Não queira me ver, se não quer ser visto. É sorrateiro. 

Eu não te procuro e você sempre me acha. Eu habito em você.

Você me busca e me encontra nos teus sonhos quando menos espera. 

Eu já fui. É você quem de verdade não foi porque ainda me busca.

Sempre habitarei em você, afinal fui eu quem te ensinei a viver. 

Habito tua luz e tua escuridão porque era pra mim.

Eu existo, mas não sou palpável, sou feixe, raio, furtiva.

Quer me encontrar de fato?! Mergulhe fundo dentro de você. É lá que eu vivo e morro todos os dias. 

 Quem sou eu? Meu nome é Esperança

 

PS.: Este texto não é sobre sentimento, mas é sobre um substantivo feminino. 

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Com tanto e tanto

O Outono – minha estação preferida – trouxe tanta coisa boa, tanta beleza, algumas realizações (ufa!), novas flores, novas cores, novos tons, novas nuances... Mas como a vida é uma “estação”, um ciclo que flui... é chegado o Inverno trazendo novas perspectivas com Sol, Lua em novos signos, novos santos e trazendo sinais. Os céus encantando a cada novo dia com sua beleza extraordinária, reafirmando novas oportunidades ainda melhores e que existe todo um capricho sendo preparado.

A estação mudou, a vida mudou, o olhar mudou... e que bom! O Tempo de espera que traz esta nova estação pode ser aproveitado com mais amor, com mais alegria, com mais propriedade, com tanto e tanto. É o bailado da Natureza nos mostrando as belezas dos ciclos. “No Inverno te proteger” nunca fez tanto sentido e sentir. E “logo posso esperar que um dia vou ver a fera ronronar com doçura”! E segue a vida em sua plenitude se importando por tanto sentir.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Por inteiro

Pertencer é verbo intransitivo direto. Significa “fazer parte de ; ser parte do domínio de”... e a real
significância da forma perfeita te distancia do que é em parte, porque se quer o inteiro. E então, a esfera nos mostra que o inteiro é solitário e a forma perfeita cai por terra. A união dos inteiros são ouros inteiros não compartilhados. Nestes casos, o que salva é a intercessão. E então, voltamos à
parte. Não quero pertencer.

Relacionar é verbo bitransitivo direto, pronominal. Significa “estabelecer relação ou analogia entre coisas diferentes; fazer relação de”... e a real significância da forma perfeita te aproxima do que é inteirar-se em si, em outro. E o triângulo vem nos mostrar o inteiro que se encaixa sem invasão. A união dos inteiros formam outras figuras, mesmo que não perfeitos. Novas formas unindo equiláteros, escalenos, isósceles... E outros verbos vêm brindar a união de um todo que não excluiu.

Compreender é verbo transitivo direto e indireto. Significa entendimento, perceber, atinar, conter em si, em sua natureza abranger(se)... E então, que tenhamos os substantivos de cada ação, onde se tenha compreensão para distinguir o pertencimento e a relação... para que cada inteiro se encaixe por inteiro, sem forçar, sem se agredir, sem se ausentar... sentir.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Da varanda

 Da varanda da minha casa, tanta coisa já passou no meu interior, ao meu redor. Já foram tantas as imagens, sensações, suspiros, festejos, alegrias, sorrisos, choros... um tanto de tantos sentimentos, emoções, sensações.


Do turbilhão à serenidade, da despedida ao reencontro, da tristeza à alegria, da dor à cura, do mal ao bem, das lágrimas ao riso farto... E a cada ano – já se vão 12 – foram muitas as transformações, os desenvolvimentos, as conclusões, os fins, os novos inícios...

Dos que passaram por minha vida e habitaram minha varanda – ainda que por alguns minutos – muitos permanecem e outros já não estão entre nós. O efêmero sopro de vida que já não venta mais neste plano ou foi ventar em outros ares.

Da vida que ornamenta a varanda mais linda que conheço, só gratidão. Já teve de ninho de passarinho a beijo. Bichos, plantas e pessoas que a cada muda, cada florada, cada conquista deixa ela ainda mais charmosa.

Das ambiguidades que vi, que vivi, que senti ao longo destes 12 anos, costumo compará-las às fases da Lua. Ora crescente, ora cheia, ora minguante, ora nova... numa constante lembrança que se existem certezas, mudança é uma delas.

Do Tempo que suspirei por amor, por dor, a minha varanda me ensinou dia após dia que ciclos vêm para nos ensinar a viver e a viver melhor, com mais amor, com mais simplicidade, menos impulso e menos intensidade.

Hoje me pego novamente aqui contemplando a beleza de uma noite de preces com pedidos, mas principalmente, de gratidão. Olhai por nós, meu Pai! Atòtò. Salve o Tempo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O mesmo jogo, novas peças


A vida pode ser comparada a um jogo de quebra-cabeças – uns com muitas peças, outros nem tanto. Nossas primeiras peças e encaixe são a nossa família primária. Nem sempre o encaixe é perfeito, ainda que sejam feitos do mesmo material. Uma peça ou outra se quebra ou não se encaixa mais ou fazem outras jogadas.

Não se vislumbra o desenho que se forma, tampouco a duração do jogo. Ele se molda com o Tempo e com a chegada e partida de algumas peças. Também não é sabida a quantidade de peças que farão ou deixarão de fazer parte do mosaico. E assim vai se formando, desenvolvendo, significando e resinificando o quebra-cabeças, a vida... num mesmo jogo, novas peças.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

... num mundo de (im)possibilidades

 Fecho meus olhos e então estou em um barco, no meio do oceano. Não estou no meio do nada. Ao contrário, estou no meio da imensidão. Não há remo, não há vela, não há motor, não há força propulsora alguma... Somos apenas eu e a pequena embarcação. Não há tempestade, tudo é calmaria. O mar está uma mescla de azul que não decifro, e o céu está num tom exuberante de azul indescritível e não há nuvens no céu. E um dia de Sol e nem todo azul tira da ambiência o amarelo dos raios solares...


O mar está parado, o tempo está parado, eu estou parada... não há uma conexão Tempo/Espaço, não há caminho, não há direção, não há. Existe um vazio enorme, tão grande quanto a imensidão à minha volta. E o silêncio envolve meus sentidos com o vácuo, mas com ar para respirar na calmaria. Não há dor, não há medo, não há sofrimento, não há desespero... mas, também não existe amor, não existe alegria, não existe movimento, não existe vida... de alguma forma tenho paz.

Eu que sou uma alma da Terra, estou envolta em Água, que não me molha, não me lava, não me trata, não me move... Sou um corpo sem alma num mundo de (im)possiblidades.