Há pessoas que chegam como amor.
Outras, como aprendizado. Algumas permanecem por uma vida inteira; outras ficam
apenas o tempo necessário para deixar uma marca... E há quem vá embora muito
antes de partir.
Talvez seja por isso que, às
vezes, quando a morte finalmente chega, a gente não morra junto. Porque, de
alguma maneira, já havia acontecido uma despedida silenciosa anos antes. O
afeto já tinha partido. A presença já havia se tornado ausência. O abraço já
não encontrava o mesmo lugar. E aquilo que um dia foi amor talvez tivesse se
transformado em lembrança muito antes do último suspiro.
Dizem que morre menos quem morre
longe.
Talvez porque a distância nos
ensine, aos poucos, a sobreviver à ausência. Porque quando não vemos, não
tocamos, não ouvimos, o coração vai aprendendo, mesmo sem querer, a conviver
com o vazio.
Existem mortes que acontecem no
corpo e existem mortes que acontecem na alma. Morrem os vínculos quando
deixamos de escolhê-los. Morrem os sonhos quando desistimos deles. Morrem
relações quando o silêncio passa a dizer mais do que as palavras. E, algumas
vezes, morre uma parte de nós cada vez que escolhemos permanecer onde já não
existe amor.
Toda escolha carrega uma
consequência. Todo caminho exige renúncias. Nem sempre escolhemos certo, nem
sempre acertamos de primeira. Somos feitos também dos nossos erros, das nossas
dores, dos amores que não souberam ficar e das pessoas que não souberam partir.
Mas talvez viver seja exatamente
isso: aprender a deixar morrer aquilo que precisa morrer para que alguma coisa
nova possa nascer. Então, que a gente tenha coragem para reconhecer as partidas
antes que elas se tornem ausências definitivas.
Que saiba amar enquanto ainda há
tempo. Pedir perdão enquanto a voz alcança. Abraçar enquanto os braços ainda
podem envolver. Dizer “eu te amo” sem esperar que a morte transforme o que
sentimos em arrependimento.
A verdadeira partida, muitas
vezes, não acontece quando alguém fecha os olhos. Ela acontece quando já não
existe encontro. E, quem sabe, a maior sabedoria da vida seja entender que
algumas pessoas não precisam morrer para que a gente precise deixá-las ir.
Há despedidas que doem, há
despedidas que libertam e há despedidas que, apesar da dor, devolvem a nós
mesmos a vida que havíamos deixado pelo caminho.
No fim, todos chegaremos ao mesmo
destino, mas enquanto a vida ainda nos escolhe, que a gente escolha também
viver. Amar. Recomeçar. Perdoar. Soltar. Ficar quando houver amor. Partir
quando houver apenas ausência.
E que, quando chegar a nossa
hora, não reste tanto do que dizer, porque algumas das maiores mortes acontecem
quando ainda estamos vivos... E uma das formas de amor é simplesmente não
esperar a morte para compreender que nem tudo vale a pena.
