segunda-feira, 20 de abril de 2020

De palha me cubri...


Chegou o dia da festa (16 de fevereiro de 2020) para quem estava do lado de fora, porque a verdadeira festa, a do Vodum, já havia acontecido dentro do Peji. E era a hora de sair. Do pouco que vi e pude sentir, dentro de mim havia um misto imenso de sentimentos e o mais profundo desejo que tudo acontecesse da melhor forma. Havia o medo também, mas um medo diferente. O meu medo era que lá fora, na assistência da festa não estivessem as pessoas que eu amo e uma de fato faltou. Eu não os veria, mas saberia que estiveram lá.

E de palha me cubri. De palha eu fui coberta. Essa é a minha armadura há tempos, mas nunca como a partir daquele momento. Não uma armadura que me permite o ataque, muito pelo contrário. As palhas pra mim são como o colo de meu Pai, onde me sinto protegida e me faz ser melhor. Sob as palhas eu encontro proteção, afago, amor e é isso que posso oferecer. Não me é mais permitido não tentar ser melhor todos os dias, não me é mais permitido deixar de domar minhas más tendências... só me é permitido ser melhor.

A palha é leve, mas traz um peso enorme sobre quem a carrega. É o peso da responsabilidade de não mais aceitar o erro de nenhuma forma, de buscar a melhoria interna, bem como do entorno. Um difícil exercício diário. Mas no dia da minha saída a palha me trazia a leveza do dever cumprido. Era uma parte da alegria de ter conseguido honrar meu esforço em me doar, bem como o esforço da minha Gaiaku, do meu Mehuntó, da minha Deré, da Minha Dofonitinha e de todos meus irmãos de fé que participaram ativamente da minha iniciação.

E na festa tudo correu bem. Minha Dofonitinha e eu éramos alegria pura e, é claro, alívio também. Não vimos nossa família, mas soubemos que eles estavam lá. Pra mim faltou uma pessoa muito importe, mas que eu não esperava, mas desejava muito que estivesse presente. E presente não por nada, mas por tudo. Por tudo que fui e sou. E uma vez mais fechei meus olhos e mergulhei no meu mundinho para buscar o entendimento que em várias circunstâncias me falta.

E de palha eu cubri para também ouvir a voz do meu atotô (silêncio).
Continua...

2 comentários:

  1. Chegou o dia esperado da iniciação. Gostando de acompanhar! bjs, chica

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    Respostas
    1. Oh, minha querida, obrigada pelo carinho. Foi uma jornada e tanto!

      Beijos confinados,
      Audrey

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Sejam bem-vindos!!! O caminho é pequeno, mas o coração é grande.