domingo, 26 de agosto de 2012

Eu, ela, ele e Chica!


A Chica me inspirou! Visitando um dos blogs da Chica (são muitos, quem a conhece sabe do que estou falando), o "FuXICAndo com as letras", me deparei com um post singelo, simples: a cena de uma criança puxando uma mochila de carrinho, indo para a escola. No post, Chica fala sobre a foto como uma participação em um blog amigo – não lembro o nome – com o tema estudante. E é seu neto Santiago, o caçula!
Nossa!!! Como a foto me invadiu e me emocionou. Meu coração sentiu um aperto gostoso, as lágrimas marejaram meus olhos e meus lábios sorriram. Me veio logo a cabeça meus filhos indo para a escola... que delícia! Mariana, a minha filha mais velha, entrou para a escola aos dois anos. Que alvoroço! Na véspera não dormi. Que medo de deixar meu bebê na escola. Das 8h às 12h muita coisa poderia acontecer e eu não estaria lá. Medo foi o que senti!
Mariana acordo disposta, se arrumou “sozinha”, até laços deu em seu tênis – laços frouxos, é claro. EU me senti desamparada. ELA, como sempre, se sentiu dona de si, na altura dos seus dois anos. Na porta da escola EU era a figura do desespero. ELA era a figura da curiosidade. EU com olhos marejados de um sentimento que não consegui classificar. ELA com olhos brilhantes de alegria em ver aquelas crianças.
Saímos do carro – EU tremia de nervoso e ELA de euforia – a entreguei a professora e aguardei que ela chorasse, não quisesse ficar com aquelas pessoas desconhecidas, mas o que recebi foi linda entrada – como um triunfo – de uma grande menina de dois anos que deu a mão a professora e caminhou em direção ao corredor e sequer olhou para trás. Que frustração!
Aguardei até a hora do recreio e a professora veio até mim e disse, calmamente: “_ Mãezinha, pode ir embora. Ela está ótima, é bastante comunicativa, participativa, ajuda aos coleguinhas e está muito feliz. Fique tranquila”. Aquelas palavras soaram como um soco na boca do estômago. Entrei no carro e fui para casa. Aquele dia não trabalhei. Havia avisado no trabalho que minha filha, meu bebezinho, ia para escola pela primeira vez e tinha que acompanha-la. Afinal, seria uma adaptação difícil para ela que tinha apenas dois anos e dois meses. Fiz mais. Avisei que ao longo da semana chegaria mais tarde porque a adaptação duraria uma semana.
As horas não passavam. Antes das 11h – a Mariana saía da escola às 12h – lá estava eu na porta escola, aguardando ansiosa a menina “assustadinha” que sairia da escola. As 12h, veio Mariana cheia de si e quando me viu, correu na minha direção e disse: “_ Que saudade, mamãe! Posso ficar mais um pouquinho?!”. Quase tive um treco. Como assim ela queria ficar mais?! Estava indignada com tamanho desprendimento. Estava triste, mas também feliz! Sorri, a abracei e apenas disse: “_Fique tranquila, amanhã você volta!”. Ela sorriu, deu tchau para todos e disse: “_Fiquem tranquilos, amanhã eu volto!”.
Na manhã seguinte Mariana se levantou, se arrumou e, novamente confiante, foi para a escola. Na porta, desta vez, a diretora me esperava e perguntou se poderia falar comigo. Disse que sim e me precipitei a perguntar se havia algo de errado. Com um sorriso leve ela me disse: “_ Nossa, como a Mariana é levada, né?!”. Eu apenas sorri e balancei a cabeça concordando com ela. Ali começaram meus “problemas” (rsrsrs). A minha vida mudou e da diretora também. Anos mais tarde ela teve uma filha e colocou o nome de... Mariana, é claro, em homenagem a minha Mariana. Só quem tem uma Mariana sabe o que é ter uma Mariana.
Nosso ritual matinal pelos quatro anos seguintes foi o mesmo. Éramos apenas nós duas. Enquanto tomávamos banho e nos arrumávamos, conversávamos sobre muitas coisas. Era pouco tempo, mas intenso e precioso. Trabalhava muito e pouco ficávamos juntas: algum tempo à noite, quando estávamos cansadas, e pela manhã, cheias de gás para começar um novo dia. SEN-SA-CI-O-NAL!!!! Com certeza era a hora mais preciosa do meu dia, quando éramos apenas de nós duas falando sem parar sobre as novidades e o dia anterior.
Nesses quatro anos que se seguiram, fomos presentadas com o Pedro, nosso caçula. Pedro ficava inconformado com a Mariana indo para a escola e ele ficando. Pedro queria não apenas ir para a escola, como queria fazê-lo com a Mariana. Mas a escola que a Mariana estava (ainda hoje está e Pedro também) é de freiras e só entra aos quatro anos. Pedro tinha três. Como resolver essa questão?! Além de tudo, ele queria ir de van, como a irmã.
Fácil! Em frente à escola da Mariana havia um jardim-escola. Lá fui eu! Matriculei o Pedro e, em fevereiro de 2003, começou a estudar. Tudo de novo, só que diferente. Fui mais prudente e menos infantil. Perguntei ao Pedro se queria que o levasse para a escola no primeiro dia de aula. Rapidamente ele me respondeu: “_ Pra quê, mamãe?! Eu estou com a Mariana!”. Ele falou isso com tanta segurança que me espantou. A Mariana sempre foi decidida e ele confiava nela. Que coisa mais engraçada! Ela só tinha sies anos! E o mais engraçado é que até hoje é assim. Se a Mariana está, não tem problemas.
O menino branquelo e tímido deu lugar a um menino que ao longo daquele ano, daquele primeiro ano de escola, continuou magrelo – e é até hoje – mas menos tímido. Começou a disparar palavras, se tornou independente – só com quase quatro anos aprendeu a amarrar o sapato e quem ensinou foi a Mariana, é claro!
Como a irmã, Pedro adorou ir para a escola, brincar com outras crianças, mas o que ele mais gostava mesmo era de ir e vir na van com a Mariana. Só “os dois”, sem a mãe por perto. Mais radiante ele ficou quando no ano seguinte ele fazia parte do mesmo “grupo” da irmã, afinal, havia crescido e estudava na mesma escola. Entravam e saiam juntos, com o uniforme parecido. A mesma van. E os dois iam juntos, de mãos dadas para a escola.
Agora estava completa a nossa manhã, nosso ritual e as nossas conversas. Éramos nós três: EU, ELA e ELE. Os anos foram passando... Continuo trabalhando muito, mas estou em situação mais favorável e passamos mais tempos juntos. Mas ainda hoje – e que Deus permita que por longos anos tenhamos essa hora só nossa – a minha casa às 6h da manhã ainda é o mesmo alvoroço. A van chega a nossa casa às 6h55. Temos quase uma hora só nossa. Em meio a um banho e outro, são longos minutos em que falamos sem parar, contamos coisas que não havíamos dito antes, repetimos coisas ditas no dia anterior, brigamos, rimos, conversamos sem parar. Não há um único minuto de silêncio. E como eu gosto disso! Não abro mão disso por nada nesta vida. E a van chega – a mesma van, o mesmo motorista-anjo-da-guarda, que meus filhos aprenderam a amar e “respeitar”. Respeitar, às vezes, já que de vez em quando, recebo reclamação de que demoraram, que a van tem que buscar porque um ou outro não veio na viagem certa – e eles entram e vão para escola!
Essa é uma das coisas que faz a minha vida feliz! Que enche a minha alma e o meu coração de alegria. E foi isso que tanto me emocionou ao ver o post da Chica. Assim somos EU, ELA, ELE e a CHICA! Obrigada, Chica!