domingo, 31 de maio de 2020

Carta para Deus


Querido Deus,


Não sei bem por onde começar. As idéias andam desordenadas e as palavras me fogem ou não parecem fazer sentido. Tento acalmar corpo, mente, alma, coração e não consigo. É como se eu estivesse no olho do furacão. Sinto dor, minha alma está muito machucada, está dilacerada e não tenho forças para me curar. A dor me engoliu.

Nem de longe me pareço com quem um dia eu fui. Eu tinha sonhos, tinha alegria de viver. Eu perdi e me perdi e não me encontro. Desejei algumas coisas com o mais profundo de minha alma e mesmo assim as perdi. Fiz o melhor que pude com o que tinha e sabia e o fiz de corpo, coração e almas nus e, ainda assim, perdi. Não estou dando conta de suportar, Deus.

Não sei onde ou porquê perdi o que mais me dava alegria nesta vida, que fazia me sentir viva, inteira... Perdi meu maior refúgio, meu lugar preferido, minha alegria, meu amor, meu amigo... Ah, Deus, que golpe duro. Não estou sendo capaz de me refazer. Um misto triste de sentimentos que paralisam, mas que causam uma dor imensa. Dentro de mim há Deus e eu O estou buscando, mas são tantos os escombros que acho que como eu, o senhor também morreu. Me perdoe por nos ter matado e não é nobre morrer de amor.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O merecimento


“O merecimento maior é do homem que se encontra na arena com o rosto manchado de sangue, suor e poeira... Que conhece os grandes entusiasmos, as grandes devoções; que sacrifica a si próprio por uma causa digna, e que, quando muito, experimenta no final o triunfo de uma grande realização... E, se ele fracassa, pelo menos fracassou ao ousar grandes coisas e, por isso mesmo, seu lugar nunca pode ser tomado por essas almas tímidas e frias, que não conhecem nem vitórias nem derrotas”.
John F. Kennedy

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Este pensamento de John Kennedy sempre me foi tão profundo... por quantas vezes na vida buscamos, lutamos, corremos atrás de algo, de alguma situação e conseguimos. Eita que a sensação é boa demais. É como se todo o esforço feito tivesse a conquista como recompensa. Em outras vezes não recebemos a recompensa pelas inúmeras tentativas. É claro que a sensação não é boa, mas também vale a pena. E vale a pena porque não houve o medo de tentar, de tentar de novo e de novo e de novo... até a exaustão. Isso também nos faz grande. Houve o fracasso, houve a derrota é bem verdade, mas pelo menos foi ousada uma grande coisa, talvez até uma coisa com um valor inestimável. A vida é assim: composta de vitórias, de derrotas... e assim vamos nos construindo, desconstruindo, reconstruindo... Ao final, podemos até não sermos mais os mesmos, mas devemos continuar tentando ser o melhor que podemos com o que sabemos. Triste mesmo é quem desiste.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Não sou eu quem pede, é o AMOR que grita


Olha só você fazendo confusão entre minha mente e meu coração. Que belo enigma esse seu jeito de agir me traz! Aos poucos venho percebendo a armadura que você vestiu, o que você não percebe é que com ela eu não consigo sentir o que vem de você.

Não consigo entender os teus sinais ou as tuas intenções. Alguma coisa dentro de mim diz que se eu quiser entrar no teu coração, terá que ser com muita calma, mas você precisa colaborar também.

Talvez ao te dar espaço você pense que eu não desejo esse mergulho, se sinta inseguro, mas é que realmente eu não sei como agir. É difícil sentir um coração que se protege. É difícil corresponder as tuas expectativas quando teu medo da vulnerabilidade te tira a naturalidade e esconde as tuas necessidades.

Comigo você não precisa disso, não quero me relacionar com tua armadura, eu já conheço muito do que você esconde e talvez se soubesse que quanto mais você se mostra mais eu me apaixono, você abandonaria os teus escudos de vez.

Eu já tive um deslumbre da tua alma, eu cheguei em tua vida em um momento que ela sangrava, lembra? Quando tua dor amenizou você voltou a vestir tua proteção, eu recuei quando percebi que estava diante de um muro.

A vida teve um jeito torto de me mostrar de que você se importa, de me fazer entender que era recíproco. Eu não sou perfeita e você sabe bem disso, mas eu sou doação, entrega... Eu estou inteira e sei que tenho aquilo que você está buscando.

Solta esse medo, vamos crescer juntos. Lá no fundo você sabe que podemos ir longe. É disso que você tem medo? Se desconstrói, se desarma e abre espaço aí dentro, não sou só eu quem pede, é o AMOR que grita passagem.

Eu te amo... até sempre... pra sempre!

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Gosto de festa


Toda vez que me abraço contigo

São tantos motivos pra enlouquecer
Te esquecer, juro que não consigo
Me viro do avesso pra não te perder
Quando estou viajando em teus beijos
São tantos desejos que sinto nascer
Se um dia você me deixar, eu não deixo você
Ao sentir tuas mãos flutuar em meu corpo
Me desprendo de mim sem fazer alvoroço
Coração fica alerta, minhas portas abertas
E as palavras que surgem eu não posso dizer
São momentos sem fim, você dono de mim
Saboroso prazer, dá gosto de viver
Esse gosto de festa, a minha alma em festa
Como foi bom te conhecer.
Dominguinhos do Estácio

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Algumas músicas são tão belas, são verdadeiras declarações de amor. Há alguns pares de anos escrevi esta música como forma de declaração de amor ao meu amor, em um papelão. Engraçado como algumas atitudes nos sentenciam. Hoje, depois de tanto tempo, depois de tantas coisas, tantas situações – algumas fáceis, outras nem tanto – eu ainda te amo tanto. E como na música, “se um dia, você me deixar, eu não deixo você”. E eu não te deixei. Por mais difícil e doloroso que seja, em momento algum me arrependo de ter conhecido você, de ter despido a minha alma, de ter me entregue de alma, corpo, coração... Com a mais absoluta certeza o amor que sinto por você é o melhor sentimento, o mais profundo que já senti por um homem. Como foi bom te conhecer. Eu te amo... até sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2020

O tempo


“Ter menos para ser menos propriedade das coisas. O excesso a ser administrado nos rouba o bem mais precioso: o tempo”.

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Ah, o tempo! Sempre avassalador, sempre dono de si e de tudo mais. Quanta perda de tempo passar o tempo, pensando no tempo futuro – que pode ser que nem chegue – deixando de viver o tempo presente.

Há quem caminhe lentamente sobre o seu tempo e há quem o atropele. Ambos se equivocam com o próprio tempo achando que ele é infinito, mas escorre por entre os dedos. É hora de valorizar o tempo, porque uma hora ele é tempo e na outra, não mais.

Tempo é presente precioso e já que vamos perdê-lo que seja com quem verdadeiramente amamos.

sábado, 25 de abril de 2020

O que se perde, o que se ganha...


Já falei em uma postagem que sou lerda para algumas coisas, mas quando se trata de sentimentos, sou uma perfeita idiota. Na maioria das vezes, interpreto errado e o preço que pago é alto... quando considerei de fato fazer minha iniciação no Candomblé considerei algumas coisas e superestimei outras. E, é claro, que o resultado não foi dos melhores. Eu não sou boa de entrelinhas, não sei ler este tipo de diálogo.

Não sou uma pessoa carinhosa, mas sou pau pra toda obra e se eu amo alguém, não meço esforços. Não sei se isso é defeito ou qualidade. O amor pra mim é sagrado e eu amo por inteiro, com plenitude, desarmada e com a alma nua e sempre espero o melhor do amor, até porque faço o melhor que posso, com o que tenho e com o que sei. Pode até não ser o melhor para os outros, mas com a absoluta certeza, é o meu melhor, meu mais puro, meu mais profundo.

E eu perdi. Supervalorizei o amor. E perdi o que tanto prezava. Perdi sem opção de escolha, porque se tivesse que escolher o meu amor mil vezes, eu escolheria mil e uma. E eu perdi sem sequer ouvir uma única palavra. Quando eu vi, já não existia. E tudo que eu considerava tão sagrado, tão meu, já não era mais.

Em cada escolha do meu amor, em mim ele encontrou total apoio. E foram muitas as escolhas. Conheci em uma profissão e, em 15 anos de convívio, foram algumas outras. E, em todas as escolhas, o meu apoio. De lugar foram outras tantas escolhas e lá estava eu. Viajei alguns pares de quilômetros de carro, de ônibus, de avião. Porque pra mim o amor passa pelo apoio, pela cumplicidade. Sem contar que mudaram as profissões, os lugares, mas a pessoa é a mesma e com o amor ao lado se caminha mais firme. E, caso algo não saia como esperado, se tem o melhor lugar para pousar: nos braços de quem nos ama.

Na nudez da alma eu tinha o maior orgulho de dizer que o amor é maravilhoso e que eu o conhecia. Orgulho sem soberba. Do meu amor sempre falei com amor, alegria. Além de amor, sempre falei que era meu melhor amigo. Desde quando o conheci, quando acontecia algo bom, ele era a primeira pessoa que eu pensava e contava. E, se acontecia algo ruim, também era nele que pensava e pra ele que contava. E, ainda hoje, ele é a primeira pessoa em quem penso, mas já não tenho como contar.

E quando escolhi fazer minha iniciação jamais pensei que seria assim. Nem nos meus piores pesadelos achei que isso me aconteceria. Eu de verdade acreditei que meu amor e eu ficaríamos juntos por toda vida e que envelheceríamos juntos em algum lugar tranqüilo do interior. Eu realmente acreditei nisso e nunca imaginei que seria de outra forma. Em anos eu apoiei tantas escolhas – e algumas foram desafiadoras – e eu só fiz uma escolha.

É tão estranho. Eu sou um ser humano como qualquer outro, com defeitos e qualidades; sou uma pessoa séria, digna, correta, honesta; sou uma profissional que trabalha muito para colocar na mesa o pão nosso de cada dia; sou uma mãe que faz o possível para e pelos filhos; não sou boa dona de casa, mas cuido da minha casa com zelo e carinho; sou uma mulher bacana; não faço e não desejo mal a ninguém. Eu creio em Deus e nas forças da Natureza, amo Nossa Senhora. Não sou do mal, não apoio o mal, não aprendi a virar a cabeça como a menininha do filme “O Exorcista”, tampouco aprendi a subir paredes de costas.

O que eu aprendi na minha iniciação no Candomblé? Aprendi a silenciar, domar mais meus impulsos, ser menos explosiva, olhar pra dentro de mim, respirar fundo quando as cosias saem do “controle”. E outras coisas ficaram ainda mais fortes dentro de mim. Deus está em todas as coisas e isso inclui dentro de cada um de nós; o amor é o mais forte e o mais nobre dos sentimentos; podemos nos compadecer da dor do outro, mas jamais senti-la, então a dor do outro tem que ser respeitada; que o diálogo é de suma importância para todo tipo de relação; tudo que te é de valor deve ser preservado com respeito, carinho e amor; que não podemos voltar atrás, mas podemos recomeçar, retomar a qualquer tempo; que o coração do outro é terra sagrada, então só se pisa com muito amor.

Eu sou a Audrey. Eu sou ser humano, filha, mãe, profissional, dona de casa, mulher...
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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Seres desumanos...


O ser humano é quase tudo, menos humano.

Depois que voltei ao trabalho, só trabalhei por duas semanas por conta da pandemia de Covid-19. Mas foram duas semanas que algumas pessoas me deixaram impressionadíssima com a falta de discernimento, de afeto, de humanidade, nem sei de mais o quê. Vivi diversas situações desconfortáveis pra mim e vexatória para o outro. Não senti e não sinto vergonha da religião, mas sinto vergonha do outro, que fala cada coisa absurda.

Como já falei, trabalho com um político e o acompanho em agendas oficiais... Quando se faz a iniciação no Candomblé, a cabeça é raspada. Portanto, a pessoa fica sem cabelo. Contudo, a cabeça fica coberta até que sejam cumpridos os três meses de resguardo. Então, o iniciado – no trabalho – fica com a cabeça coberta por um lenço claro e discreto (nas demais ocasiões, o pano de cabeça branco). Fora o lenço, minha aparência é absolutamente normal. Lenço é uma coisa que até está na moda. Imagina.

Certo dia, chegando a uma determinada repartição pública, acompanhando meu chefe, uma senhora se aproximou de mim com um largo sorriso – eu disse largo sorriso – e me perguntou se eu estava com câncer. E eu respondi: “graças a Deus ainda não. Eu fiz o santo”. Na mesma hora o largo sorriso saiu do rosto dela, seu olhar se transformou e ela me olhou com tanto repúdio que chegou a me causar espanto. Acho que a decepcionei profundamente. Penso que ela preferiria que eu estivesse com uma doença grave. Como assim?!

Sabe o que é pior? Essa não foi a única vez que isso aconteceu. Em duas breves semanas de trabalho, isso me aconteceu umas seis vezes ou mais (parei de contar). Que triste! As pessoas achariam melhor ou mais certo ou sei lá, se eu estivesse com uma doença grave que anualmente quita a vida de dezenas de milhares de pessoas todo ano no mundo. O que será que eles pensam? A fé deles é processada em qual Deus? Ainda são humanos? São cristãos? Eu não sei. Sinceramente não sei. Uma coisa eu sei. Nenhuma destas pessoas me viram como uma pessoa, como um semelhante ou como um ser humano.

As crenças podem ser distintas, a fé pode ser processada de várias formas... o que as pessoas não deveriam esquecer é que somos todos seres humanos e devemos processar mais o amor ao próximo. Isso não é uma questão religiosa. É só uma questão de respeito, que inclui o respeito ao sentimento do outro. Como pode alguém achar mais louvável que uma pessoa que esteja de lenço esteja com câncer?! Nossa! Que coisa mais triste!

Todos os dias na volta do meu trabalho – trabalho distante da minha casa, cerca de 40 minutos de carro com o trânsito livre – eu vinha fazendo minhas preces a Deus e aos Voduns para que perdoassem os ignorantes e isso me inclui, e que me fizessem sempre e cada vez mais humana e que meus olhos nunca ficassem vendados, para que possa enxergar o ser humano, ainda que ele não seja humano comigo.
Continua...