quinta-feira, 23 de abril de 2020

De volta ao trabalho...


A vida tem que continuar... e o trabalho é mais que necessário.

Um dia depois da minha volta “triunfal” pra casa, fui trabalhar. Com todos os aparatos que inclui a cabeça coberta, fui para o meu trabalho. Estava de certa forma feliz. E no meu ambiente de trabalho físico eu fui muito bem recebida. Meu chefe e minha chefe, além dos colegas de trabalho, se alegraram em me ver. Nossa, foi um alívio e tanto porque eu já estava preparada para o pior. Naquele momento me desarmei.

Eu trabalho em dois lugares: com um político e dou aulas de Espanhol em um curso. Meu trabalho principal é com um político. E quando se trabalha diretamente com um alguém público, nossa imagem também fica muito em evidência – o que pode ser um tanto quanto desconfortável, principalmente na ocasião em que me encontrava. Mas minhas férias tinham acabado e eu tinha que voltar ao batente. E, é claro, que muitas coisas e situações me deixariam desconfortáveis.

Por ter a imagem vinculada a do meu chefe, muitas pessoas se aproximam de mim e me procuram para chegar até ele, para marcar alguma reunião, pegar alguma assinatura, enfim, para ter acesso a ele. Uma das minhas principais funções é acompanhá-lo em suas agendas oficiais e, isso inclui visita a obras, órgãos públicos, etc. E logo que voltei ao trabalho tínhamos que visitar uma construção e lá encontraríamos um deputado (para quem trabalhei e indiretamente continuo trabalhando) e sua equipe, além de outras pessoas. Ao todo éramos cerca de 40 pessoas.

Chegando na tal obra fui olhada por todos (quase que ao mesmo tempo) de uma forma nada interessante. Os poucos que me cumprimentaram o fizeram a distância – e uma distância considerável. E as pessoas estavam em grupos formados por três pessoas ou grupos maiores e apenas eu estava sozinha. Só duas pessoas dentre todas que lá estavam me cumprimentaram e conversaram comigo por uns 10 minutos. Os demais não passaram nem perto. Foi como se eu tivesse com uma doença altamente contagiosa. Em outros tempos, fariam questão de me cumprimentar, conversar...

Este dia me deixou muito triste. Não por minha causa em si, mas por aquelas pessoas. Tão triste ver tanta gente desumana de uma só vez, em um mesmo lugar. Foi assustador.
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quarta-feira, 22 de abril de 2020

De volta pra casa,,,


Voltar pra casa gerava uma expectativa enorme.

Exatos 30 dias depois da minha entrada no Barracão eu voltava pra minha casa. Foram 30 dias sem ver as pessoas que eu mais amo – das quais uma eu não via há um pouco mais. Nossa quanta expectativa! E gerar expectativa, na maioria das vezes, pode ser bem frustrante também. As pessoas estavam em suas rotinas. Era eu quem estava fora.

Minha mamãe foi até a minha casa me ver na mesma hora em que cheguei, meu filho chegou um tempo depois, minha filha depois de três dias e há pessoas que não chegaram. Este era o meu primeiro choque de realidade. E chegar em casa foi bom, sem dúvida, mas penso que gerei expectativa demais. Era eu quem estava com muita saudade.

Cheguei em casa, mas ainda tinha regras a seguir que perduram por mais três meses. Recebi da minha Gaiaku muitas orientações e algumas poucas concessões – chamada na religião de “quebra de quizila” – porque voltaria ao trabalho em pouquíssimo tempo. Não cabe aqui falar sobre as regras que tinha que seguir, tampouco as concessões que me foram feitas para o trabalho. O que me cabe dizer é que em casa, como toda Yawò eu havia que cumprir todas as regras, sem exceção.

Não são as regras mais difíceis do mundo que uma Yawò tem que cumprir, mas para que tudo corra bem, é necessária muita disciplina. De toda forma, estar em casa foi bom. E uma nova etapa começava...
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terça-feira, 21 de abril de 2020

Minha Dofonitinha


Os laços que ser formam em um Roncó são para toda vida.

Fiz minha iniciação no Candomblé com a Andreia – esposa de um dos meus primos. Nos conhecemos há 30 anos (isso mesmo! Ela casou ainda adolescente e eles estão juntos até hoje). Quisera Deus e os Voduns que ela se mudasse para a casa em frente a minha. Por alguns motivos não nos falávamos. Até quem um dia voltamos a nos falar e ela foi ao Barracão que frequento. Daí pra cá nossa amizade se fortaleceu bastante. Uma ajuda a outra nas precisões da vida.

Decidimos que faríamos o possível para fazermos nossa iniciação juntas. Eu de Azansú e ela de Oyá. E, assim, aos poucos, sem grandes pretensões, fomos nos preparando... até que em janeiro de 2020, entramos juntas para a iniciação. No dia 25 de janeiro formou-se o barco da Audrey e da Andreia. Começou naquele dia a nossa irmandade. Não sabíamos ainda – fazíamos apenas ideia – o quanto uma precisaria da outra e o quanto teríamos que nos apoiar.

Foram longos dias juntas. Na maior parte do tempo éramos eu e ela com nós mesmas. Ora eu precisava do apoio dela, ora ela do meu. À vezes nos falávamos e nos entendíamos só com o olhar. Foram longos dias de mistos sentimentos e emoções. Só nós duas sabemos se rimos ou se choramos. O fato é que compartilhamos absolutamente tudo e não foi fácil. E se conseguimos passar por algumas coisas, agradecemos a Deus, aos Voduns e uma a outra.

Entramos como Audrey e Andreia e saímos como Dofona Azonsi e Dofonitinha Oyasi. Construímos mais que amizade. Construímos uma irmandade que tem laço por toda vida. E não foi apenas por estarmos no mesmo barco, mas por temos nos unido, nos entendido, nos apoiado nas horas difíceis e por termos entendido que a união e o amor tornam tudo mais fácil. E no Roncó não há como se esconder em nenhum subterfúgio. Nós somos mais de nós mesmos e é necessário olhar diferenciado para encontrar o amor quando estamos desnudos. Isso é para poucos. Então, somos privilegiadas por nos amarmos na “nudez”.

E eu tenho a MELHOR Dofonitinha que uma Dofona pode ter. Ela é a Minha Dofonitinha. Minha e Dofonitinha com letra maiúscula porque ela é assim: grande em tudo que faz, além de “me pertencer”. Dofonitinha ela é só minha! (coisas de filho único que amam e têm seus “istas”: individualista, egoísta, exclusivista... e eu sou filha única). E a Minha Dofonitinha é mais que especial por tantos motivos que fica difícil enumerá-los.

Palavrão pra ela é vírgula, tem modos de menino... ah, mas ela é sensível, tem olhar diferenciado para o outro, ela cuida, tem um abraço incrível, seu beijo cura, sua presença traz cor e alegria. Ela é um ser humano incrível. Mal de mim se não tivesse tido a Minha Dofonitinha, exatamente do jeitinho que ela é: um furacão! Um furacão maravilhoso!!!

Falamos, ouvimos, sentimos e vivemos juntas o que nunca será feito ou compartilhado com qualquer outra pessoa. Saímos do Roncó com lindo laço. E à Minha Dofonitinha, os meus mais profundos respeito, admiração, gratidão e amor.
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segunda-feira, 20 de abril de 2020

De palha me cubri...


Chegou o dia da festa (16 de fevereiro de 2020) para quem estava do lado de fora, porque a verdadeira festa, a do Vodum, já havia acontecido dentro do Peji. E era a hora de sair. Do pouco que vi e pude sentir, dentro de mim havia um misto imenso de sentimentos e o mais profundo desejo que tudo acontecesse da melhor forma. Havia o medo também, mas um medo diferente. O meu medo era que lá fora, na assistência da festa não estivessem as pessoas que eu amo e uma de fato faltou. Eu não os veria, mas saberia que estiveram lá.

E de palha me cubri. De palha eu fui coberta. Essa é a minha armadura há tempos, mas nunca como a partir daquele momento. Não uma armadura que me permite o ataque, muito pelo contrário. As palhas pra mim são como o colo de meu Pai, onde me sinto protegida e me faz ser melhor. Sob as palhas eu encontro proteção, afago, amor e é isso que posso oferecer. Não me é mais permitido não tentar ser melhor todos os dias, não me é mais permitido deixar de domar minhas más tendências... só me é permitido ser melhor.

A palha é leve, mas traz um peso enorme sobre quem a carrega. É o peso da responsabilidade de não mais aceitar o erro de nenhuma forma, de buscar a melhoria interna, bem como do entorno. Um difícil exercício diário. Mas no dia da minha saída a palha me trazia a leveza do dever cumprido. Era uma parte da alegria de ter conseguido honrar meu esforço em me doar, bem como o esforço da minha Gaiaku, do meu Mehuntó, da minha Deré, da Minha Dofonitinha e de todos meus irmãos de fé que participaram ativamente da minha iniciação.

E na festa tudo correu bem. Minha Dofonitinha e eu éramos alegria pura e, é claro, alívio também. Não vimos nossa família, mas soubemos que eles estavam lá. Pra mim faltou uma pessoa muito importe, mas que eu não esperava, mas desejava muito que estivesse presente. E presente não por nada, mas por tudo. Por tudo que fui e sou. E uma vez mais fechei meus olhos e mergulhei no meu mundinho para buscar o entendimento que em várias circunstâncias me falta.

E de palha eu cubri para também ouvir a voz do meu atotô (silêncio).
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domingo, 19 de abril de 2020

Raspada, pintada e catulada


Só depois de passar por toda as funções soube o verdadeiro significado desta frase.

Ao final das funções, véspera do Candomblé que marcaria minha saída para o mundo após longos dias, eu descobri o que significava ser “raspada, pintada e catulada”. E o quanto isso traz de leveza para algumas muitas coisas e pesa na responsabilidade. Responsabilidade com o meu Vodum, com a Gaiaku, com o meu Mehuntó, Minha Dofonitinha, meus irmãos e com as pessoas de uma maneira geral. A partir daí minha conduta será avaliada não mais por ser uma pessoa, mas pela religião que pertenço.

Havia aprendido muitas coisas de Candomblé, mas havia aprendido muito mais de mim. Aprendi a ter paciência, tolerância e perceber melhor o momento de falar e calar, conhecer meus limites, ter mais cuidado no responder e muito zelo, cuidado e carinho no falar. Dentro do Roncó descobri que preciso do cuidado e do cuidar, que eu posso ser sutil e gentil mesmo quando o assunto não é o mais fácil a ser discorrido, e que devo falar menos e ouvir mais. A onça que já não era mais tão feroz, se tornou dócil.

Deixei de ser Abiã para me tornar Yawò, mas o que mudou foi dentro. Não sabia, mas mudaria ainda muito mais quando eu voltasse para o meu mundo. E dentro de mim havia uma vontade imensa de doar todo o amor que estava guardado em mim, de reunir elos, resgatar pessoas, auxiliar no que me fosse possível, me doar, tratar, levar ao menos ao meu mundo todo o amor do meu Vodum e silenciar um tanto de vezes. E também me cuidar, me ver, me enxergar, me tratar.

E então eu fui raspada, pintada e catulada e isso significa para mim que eu preciso ser uma pessoa melhor para mim e para o outro, que tenho que fazer meu melhor e ser melhor todos os dias. Esse é para mim o verdadeiro significado.
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sábado, 18 de abril de 2020

Ser DE Candomblé e ser DO Candomblé


Há diferenças que vão além das distrações da escrita.

Minha Gaiaku é minha tia. A conheço a vida toda. Quando eu nasci ela já estava na família. Engraçado. Sempre tive mais afinidade com ela que com meu tio, com quem tenho laços de sangue. “Acompanhei” a entrada dela na Umbanda. Passei minha adolescência com a orientação da Vovó Maria do Rosário. Que saudade! Também estava próximo quando ela entrou para o Candomblé. Minha Gaiaku passou por muita coisa, mas nunca abandonou sua fé. Bonito e admirável de ver. E o tempo passou até que ela abriu a própria casa.

Fui até o barracão da Minha Gaiaku pela primeira vez em 2011 quando passei mal e ninguém descobria o que eu tinha. Lá encontrei o “remédio” que precisava, mas não queria tomar de fato. Muitas coisas e pessoas, além de mim mesma, me impediam de tomar a dose certa. E, em 2014, perdi os sentidos de novo e entrei para fazer minha iniciação. Não fui capaz! Meu mundo exterior de novo gritava por mim e eu tinha medo (muito medo) de perder o que na verdade eu não tinha (porque se tivesse de fato, não teria perdido). Mas em momento algum me foi feita proposta. Se tivesse que escolher mil vezes, escolheria mil e uma...

De perto ou de longe, sempre falei que nesta vida se eu fizesse minha iniciação no Candomblé seria com a minha Gaiaku. Ela não é uma pessoa fácil, mas é digna, honesta e em tudo que faz se entrega. Minha Gaiaku tem mais que conhecimento na religião. Ela tem fé e amor pelo Sagrado e isso a torna especial. É admirável sua entrega total. Com ela sempre tive a absoluta certeza que não seria feito apenas o certo, mas o melhor. E assim foi. Minha Gaiaku é DO Candomblé.

            Eu sou do mesmo Vodum que minha Gaiaku, mas ela sabe que apesar de me esforçar para fazer  meu melhor e ser a melhor Vodunsi que eu conseguir, eu sou DE Candomblé. Eu não sei ser de outro jeito. Por mais que eu me esforce não sou capaz. Estou longe de ser a filha dos sonhos. Se muito, conseguirei ser uma boa filha e uma boa Vosundi, mas não DO Candomblé. E essa linguística faz muita diferença. Que minha Gaiaku – que tem o meu profundo respeito, admiração e amor – me perdoe por isso.
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Caminhar em Terra Sagrada...


Me despi das vestes do mundo e andei de pés descalços.

Alguns pares de dias afastada de tudo e de todos que por anos me acompanhavam e eu amo com todo o meu coração e a minha alma. Nossa! Que saudade! Não havia um único dia que eu não tivesse pensado como estavam meus filhos meu amor, meus pais... será que estariam pensando em mim?! Será que estavam me esperando?! Sentiam saudade?!,,, Pouco antes de entrar para o Roncó enfrentei alguns desafios que eram maiores que eu, mas dois me abalaram demais. Nossa, um dos desafios havia me engolido e deixado machucados profundos que ardiam e doíam todo o tempo. Era tanto vazio cheio de dor e tristezas que nem sei. E isso era mais motivo para despir as vestes do mundo e andar descalço para se encontrar e iniciar um processo de cura.

Ah o amor! A força mais poderosa do universo também machuca! E muito. Mas promove a cura. Precisava me fortalecer por mim e pelo outro, cada um a sua maneira. Além de preces e vibrações de amor nada mais eu podia fazer por quem estava do lado de fora. Me desprendi de quase tudo que havia deixado do lado de fora. A única “coisa” que não me desprendi foi do amor. E isso é maravilhoso, porque humaniza. Era o que me fazia ser forte para prosseguir. Era o amor e o desejo de encontrá-lo no Roncó e na saída dele que me fortaleciam. Amor e desejo de amar e se permitir ser amada. Esse era meu combustível.

Todos os dias novos aprendizados e desafios. Vencer a si próprio é sempre o maior de todos. Dia após dia uma vitória, uma conquista. E cada vez mergulhava mais fundo no meu interior em busca da minha essência. Encontrei muito dela, mas também da essência do outro, daquelas que são reveladas quando ninguém está por perto. Que decepção me deparar algumas atitudes de quem deveria te auxiliar, mas preferiu mostrar a verdadeira face e ela é feia – que dó! Respirei fundo algumas vezes para não refletir o que me foi mostrado.

E estar descalço é muito mais que não ter nada nos pés. É estar de pés no chão efetivamente e metaforicamente. O chão emana energia e os pés são ótimos em captá-las. E o pé no chão doma o ego e mostra o ego de quem está calçado. E, neste momento, nos utilizamos da compaixão para entender que o outro passou pelo mesmo que você, mas não soube aproveitar como podia e deveria. Calçou os pés rápido demais...
Continua...