quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A pequena roda gigante... gira


“Ainda há gente que não sabe,
quando se levanta, de onde
virá a próxima refeição
e há crianças com fome que choram”.

MANDELA, Nelson







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As crianças pensam em coisas que não passam pela cabeça dos adultos. Elas vêem o mundo de uma forma única e são sensíveis. Podem guardar na memória coisas minuciosas das quais não esquecerão mais. O adulto que a criança se torna é reflexo do que passou na infância, do que sentiu, de como viveu. Todos os adultos foram crianças, embora se esqueçam disso em vários momentos.


As histórias de vida se repetem inúmeras vezes e só mudam os atores. Por vezes os atores ao longo da vida vivenciam a mesma história em papéis diferentes. Um dia como filhos, um dia como pais. Não se sabe se por sina, por destino, por costume, por cegueira, por falta de força para mudar ou por qualquer outro motivo. Às vezes, questionamos nossos pais e cometemos os mesmos erros, como nossos pais.


Uma criança me pediu hoje um prato de comida. Já paguei vários pratos de comida sem querer pensar na minha própria história. Mas hoje, fui traída pela minha mente e pelo meu coração. Não consegui me refutar disso. Foi mais forte que eu. Já fiquei por alguns bons pares de vezes a mercê da fome, da vontade de comer uma coisa gostosa em várias fases da minha vida.


Voltei a um passado distante e vi minha mãe tecendo calmamente com sacos de leite o que se tornaria meu leite. A aparência frágil de uma mulher pequena, mas forte como uma montanha, que não se curvava e não se curva até hoje, por mais que o vento sopre. Quantas coisas passamos juntas... quanta humilhação, quanta tristeza, mas quanta vitória. E éramos só nós duas!


Não foi fácil, mas conseguimos contornar grandes obstáculos. Descobri o que minha mãe sentiu quando não tinha leite para me dar, um prato de comida ou um pacotinho de biscoito; quando olhou para o lado não viu ninguém, além de mim – que dependia dela para viver; choramos juntas por algumas vezes de dor, de desespero e de não saber o que fazer...


Talvez a mãe da criança que alimentei com um prato de comida hoje, sinta esta mesma dor. É uma pena que não é e não será uma dor apenas de “nós três’: da minha mãe, minha e desta mulher desconhecida. Essa dor é sentida por outras dezenas de centenas de milhares de mães que não têm um prato de comida para oferecer ao filho.