Na maior parte da minha
vida tive dificuldades em ser menina, moça e mulher. Permiti que meu entorno
ferisse a menina assustada e a transformasse num “menino levado”, que cresceu e
não soube ser mulher. Para deixar a coisa ainda mais complicada, além de mãe, tive
que me tornar pai dos meus filhos. E o lado masculino mais uma vez sobrepôs o
feminino. Desiquilíbrio. Mas dentro de mim havia uma mulher que queria ser pura
e simplesmente mulher, florir, permitir...
Foi criada sem
referência paterna, por adultos e cercada de primOs. Para brincar tive que
aprender a jogar pião, bola de gude, soltar pipa... e eu era boa. Meus cabelos
encaracolados davam trabalho e era difícil de pentear – sou do tempo do creme
rinse. Para dar menos trabalho, meu cabelo era curto. A carinha era de menino
e, por ser muito levada, a maioria achava que eu era menino. Até meu nome
confundia as pessoas.
Certa vez tomei um
tombo e ralei o joelho. Então sentei e chorei abraçada ao meu joelho que estava
sangrando. Um dos meus tios – eu morava com minha mãe na casa da minha avó
materna e, na época, tinha três tios solteiros – um dos meus tios me repreendeu
e disse: “Para de chorar! Menino não chora!”. E eu respondi: ”Mas tio, eu sou
menina!”.
Aos poucos a menina
delicada, que gostava de brincar de boneca, dançar, ouvir música, carinhosa...
foi ficando bruta e cresceu achando que o certo era ser assim. Talvez me tornar
bruta tenha sido uma forma que encontrei de me defender e não ser magoada,
manter longe as pessoas. Uma forma de me defender até de mim mesma. Eu não
sabia o que era ser feminina, mulher. Engraçado, mas um dos meus primos me
chamava de Audrey Boy. Engraçado que até ele, em sua ingenuidade de menino, me
achava “meio menino”.

E assim foi se formando
o que durante muitos anos em minha vida eu “fui”. Eu vivi alguns anos com o pai
dos meus dois filhos. Eu gostava bastante dele, mas não era amor. Não aprendi
com ele a ser mulher. Como costumo dizer, eu era mais homem que ele. Depois
dele me tornei ainda mais bruta. Não sei bem explicar. Ele me fez mal e só não
foi pior porque através dele eu tive meus filhos. E, como me separei com o mais
novo ainda muito pequeno – menos de três meses – tive que esquecer a mulher e
ser apenas mãe, filha dos meus pais, trabalhadora e provedora.
Até que depois de um
bom tempo – três anos depois da minha separação – e pela primeira vez na vida
eu me apaixonei e amei de verdade. Nossa, que sensação mais gostosa! Eu nunca
havia sentido tanto prazer em estar na companhia de alguém. Meu coração batia
diferente. E eu conheci o homem que me fez me sentir mulher pela primeira vez.
Como lidar com isso? Como lidar com uma situação que era pra mim um sonho
inatingível e estava ali, diante de mim? Como ser mulher? Como deixar de ser
uma pedra bruta se isso era tudo que eu sabia ser? Que desafio!
O amor era a contramão
de mim em vários sentidos. A delicadeza no trato, nas pequenas coisas, o
cuidado... isso era coisa nunca experimentada. Eu era como um animal selvagem
ou uma onça braba, como eu era chamada. Mas ele tinha a capacidade de deixar a
onça igual a uma gatinha. Mas ainda assim um animal selvagem que queria ser “domesticada”,
mas não sabia como. Quando se é criado na selva, é difícil, muito difícil saber
agir em outras circunstâncias...
E a gatinha “mansa” ou
pedra quase lapidada não soube muito bem agir em várias circunstâncias... e o
amansador de onça braba ou lapidador de pedra bruta se foi sem uma única palavra.
Apenas foi e não voltou. Sem a mais remota dúvida, foi a dor mais dilacerante
que já senti na minha vida até o dia de hoje. Levei tanto tempo para me sentir
mulher para ser desta forma? Eita que não foi fácil administrar tanta dor e num
período delicado – inclusive de saúde física.
Deixei de existir para
o meu domador e deixei de existir até pra mim. O lado selvagem da onça a
manteve “viva” a um custo alto, porque ela já não era mais tão selvagem. Não
sabia mais existir na selva e não sabia existir domada. Muito da onça morreu.
Tanto que ela deixou de saber quem era. A onça foi muito machucada, com feridas
profundas, mas ela sobreviveu. E sobreviveu no amplo sentido da palavra.
Apesar das feridas
profundas, que machucaram a alma, a onça descobriu o quanto é bonito não ser
bicho quando, na verdade, se é mulher. Reencontrar a doçura, a delicadeza, o
carinho... ser mulher foi a melhor coisa que já me aconteceu. Uma pedra
lapidada não volta mais a ser pedra bruta. Uma onça domada não volta mais a ser
selvagem. Uma mulher quando se descobre mulher, não volta a ser “homem”.
Eu (re)aprendi a ser
mulher. Aprendi que ser forte, corajosa, manter uma casa sozinha, trabalhar
fora, cuidar dos filhos, da casa, dos pais, dos amigos... não precisa deixar
ninguém bruto. Eu posso cuidar e me permitir ser cuidada, posso amar e me
permitir ser amada... e não tem nada de errado com isso. Ao domador, desejo do
fundo da minha alma, o mesmo que eu desejo pra mim: que ele mereça a benção de
ser tão ou mais amado que um dia ele foi.